Crítica quinzenal Mônica Coster

O meio é feito para morrer

O meio é feito para morrer. Mas, é nessa morte que reside sua insubordinação.

Posso perguntar: qual é a morte do meio? Falo da morte da obra de arte (que ela desapareça), mas também da morte do significado. Morte psíquica da obra. A obra de arte tem psiquê? E obra sem psiquê, é possível? O meio é feito para morrer e para matar. Matar a psiquê do público-crítico e do artista-crítico. Essa morte acarreta na vida do corpo, que nasce, morre (é verdade), mas nasce de novo, metamórfico. Obra insubordinada à própria psiquê-obra, exercendo seu corpo insubordinado.

O meio vivo (media viva) é capaz de matar o próprio artista e matar também sua capacidade de analisar e interpretar. Cabe dizer: o meio vivo não é a livre expressão. Não é uma zona onde cabe tudo e não é uma zona onde “expressa-se”. Pelo contrário, é necessário empreender esforço para se livrar da análise e da expressão. É custoso (intenso e trabalhoso) conversar através do meio vivo e existir fora da psiquê. O meio vivo (obra-zumbi, porque desprovida de direção e expressão do artista) pode assumir essa tarefa. O meio é feio para matar porque ele não se dirige a você, ou a mim (ou a ele mesmo) e, nesse sentido, mata a direção. A obra é errante e é errante de psiquê. Ela não se dirige. Ainda que surja de forma subordinada, a obra se desenvolve insubordinada, matando-nos como interlocutores. Nós fazemos parte do meio, mas não existimos para a obra. Por isso, a obra não é feita para, ela não édirecionada a… É possível, uma obra sem direção?

Referências:

Gilles Deleuze. Félix Guattari. Como criar para si um corpo sem órgãos. Mil Platôs (Vol.3).


Mônica Coster é artista e pesquisadora. Em seu trabalho, investiga a relação entre o campo da arte e os sistemas vivos. Tem interesse pelos processos de digestão e decomposição: o corpo digestivo como um sistema aberto a outros seres e objetos ligados à comida. Pratica a digestão escultórica e a escultura alimentar; propõe a confusão entre o ateliê e o estômago. Possui graduação em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e mestrado em Estudos Contemporâneos das Artes, pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

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