Crítica quinzenal Noah Mancini

Alegorias da morte no trabalho de João Porto

Nascido em Niterói e residente em Maricá, o artista João Porto, de 22 anos, como tantos outros à beira do Rio de Janeiro, desenvolve parte de sua pesquisa e estudo na capital do estado. Esse trânsito entre uma cidade e outra, articulada na busca de possibilidades para a execução de suas subjetividades, causa uma tensão de deslocamento a qual nossos corpos são condicionados a passar cotidianamente.

Celeiro fecundo de personagens e projetos políticos tão conservadores quanto desgovernantes, não só o território carioca mas todo o país, atualmente são palcos de um duradouro velório em grande estilo. Cenário farto para a visualização de certas imagens, que combinam em um mesmo frame discrepâncias abismais: abundância e miséria, felicidade e flagelo, céu e inferno em genuína experiência estética.

O trabalho “Cabide” (2020), serve como providencial alegoria para a expressão dessa ideia.

Um pedaço de ossada é suporte para amarrar uma bandeira, tecido retangular e ilustrado com padronagem que expressa a noção de pátria – nesse caso, do Brasil. Bandeira esta que originalmente serve para ser hasteada ao vento e ostentar a soberania de sua nação.

Isso nos faz pensar, que desde o princípio da construção sígnica da bandeira, seja nas cromáticas razões coloniais, ou pelo ideal positivista de uma oligárquica república, a concepção de pátria foi implantado em nossa educação através de blá-blá-blás.

Esta bandeira suja, amarrada em um osso, manchada de sangue pende na parede. Pendura pendências pesadíssimas, encobre séculos de ossadas desencontradas, rotas extrativistas, trajetos sem volta, monoculturas e mono-versões de histórias mal contadas. O cachorro que acreditou no pedigree não quer largar o osso do fascismo.

Nessa junção de itens, correlações visuais, nasce também a série “Natureza Morta” (2020-atual) onde João embala a vácuo alguns objetos, combinados entre si, em diferentes sacos plásticos de 25x15cm. Uma rodela de laranja, dois cigarros, três conchas e três camisinhas desembaladas são encontrados em um, enquanto o outro guarda flores rosadas, pedras roxas, e um pé de coelho branco. Já em um terceiro, produzido no ano de 2022, leva uma bruxa mariposa, dois frutos de anis estrelado e um espelhinho de bolsa metálico.

Brincando com o artificial e o natural, mistura matérias orgânicas como frutas e rochas, com produtos industrializados, a camisinha e o espelho. A natureza também é antropomorfia da matéria. Toda matéria possui um tempo de vida, como a carne, e até o próprio plástico que a embala sem ar. Nessa camada sintética que involucra a decomposição natural das coisas, tem-se um decesso capturado, mantido sobre observação e contemplação.

A morbidez dos trabalhos de João criam uma atmosfera artificada para carregar esse luto. Com apreço plástico e ares de arte fúnebre, em pesarosa vaidade padecendo na beleza, a exposição da morte gera uma sensação disturbatória e fascinante ao encarar o que não está ao nosso alcance. Escolher exibir esse “feio” sublinha uma provocação aos olhos dos vivos: todo fim é certo.

A herança dadaísta e escultórica do ready-made se expressa na relação entre os objetos ali condensados, tirados de seus lugares de origem e gerando interferências de compreensão na ordinária narrativa: aparentemente antagônica, a dualidade que versa sobre a materialidade da vida, funciona na anulação de algo em prol de outro, como se vida e morte, começo e final não partissem de um denominador comum.

O perecimento nas obras nos revela outras faces, admiráveis, arranjadas. Denunciam a afetação humana perante a ação do tempo. Petrificadas em condição mortífera, numa ausência auto-explicativa, formulam hipóteses para sublimar o fim.


Alguns trabalhos de João, da série “Natureza Morta”, compõem a coletiva “O tempo das coisas”, no Centro Cultural do Correios no Rio de Janeiro.

A exposição tem proposição de Edmilson Nunes, produção de Vinícius Monte, João Porto, João Quadros e Maria Clara Tecídio e conta com a participação de mais de 40 artistas.

São eles: 13unituh, Almeida da Silva, Amauri, Agrippina R. Manhattan, Allan Corsa, Anna Heizer, Arorá, Bel Petri, Bruno Magliari, Bob N, Camilla Braga, Clara Goldenstein, Clara Infante, Cláudio Cambra, Casul0, Cristina Suzuki, Desali, Edmilson Nunes, Edu Silva, Felipe Carnaúba, Glória Marchesini,Gabriel Gonçalves, Igor Nunes, Janice Mascarenhas, Jessica Kloosterman, Jarbas Lopes, João Porto, João Quadros, Jorge Duarte, Juliana Freire e Edson Pavoni, Luisa Pereira, Lina Ponzi, Lorena Pazzanese, Loren Mizú, Luiz Camaleão, Marcos Cardoso, Maria Clara Tecídio, Mariane Monteiro, Manoel Manoel, Marcus Lemos, Rafael Amorim, Raimundo Rodriguez, Renan Andrade, Renan Aguena, Ronald Duarte, Rubens Mattos, Vinicius Monte e Virgínia Di Lauro.

A visitação fica aberta até 04 de Junho.


Nascido em 1996, Noah trabalha como artista multimídia e explora majoritariamente campos da escrita, do vídeo, e das artes plásticas. É proprietário da marca Debauxe e do espaço de arte Casa Povera.
Graduado no Bacharelado Interdisciplinar em Artes & Design pela Universidade Federal de Juiz de Fora e mestrando em Cinema e Artes do Vídeo pela Universidade Estadual do Paraná. Possui curso técnico de Aprendizagem Industrial em Confecção e Moda pelo Senai Luiz Adelar Scheuer.

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