Carolina Lopes Crítica quinzenal

Imagine só

Imagine só, um espaço bem pequenininho. Imagine 190 pessoas – por baixo, fora os penetras – de várias partes do Brasil. Imagine agora, que quem ocupará o espaço serão seus trabalhos de arte, de dimensões e disposições variadas. Imagine que não haverá um líder, alguém ou alguma diretriz para se seguir no momento de dispor os trabalhos. Imagine 3 dias de montagem, cada um decide onde estará cada objeto. Imagine a abertura da exposição. Boa parte dos selecionados presentes, seus convidados e mais um tanto de pessoas que foram sem ter ligação com nenhum dos artistas. Imagine só.

E foi um tal de onde tá a chave de fenda. Você viu a cola? Toma, tem cerveja. Cê quer? Não tem escada maior não? Gente, alguém tem escada grande pra emprestar? Carai, onde vai botar esse? Ó, o desenho no teto. Um garoto veio aí, ficou desenhando de tarde. E se colar o rolinho na vassoura. Acho que ele alcança, ele é altão. Poxa gente, nem sei como agradecer. Pago uma cerveja. Fica dando a volta no poste com o fio, pra eu desenrolar. Aiiii o vlt, vai bater na bandeira. Meu lambe tá caindo. Carai, tá foda com a chuva. Ainda mais todos esses do correio? Onde vai enfiar, meu pai. Tem que ser mais alto. Poxa ficou amassado. Amanhã a gente ajeita. 

O ano era 2022, o dia era domingo, 1 de maio: dia do trabalhador. Dia, também, da grandiosa abertura do II SALÃO VERMELHO DAS ARTES DEGENERADAS. O local era o Atelier Sanitário, o time de realizadores era formado por Bruna Costa, Daniel Murgel, Fernanda Lopes, Leandro Barboza e Thiago Fernandes. Céu de brigadeiro, rua lotada, banho de piscina, performance, galera dançando com fone de ouvido, se divertindo à vera. Playlist massa, cerveja honesta, gente conhecida à beça. Carai, você!! Menino quanto tempo. Do nada um galeto, bonzão. Banheiro limpo. Deus sabe o valor de um banheiro limpo. 

VLT pra cá, VLT pra lá, brota a polícia. Naipe Nova Iorque citiada. Fudeu. Gente tem que sair do trilho. Sai do trilho, se não vai parar o role. Pessoal meio que saiu, meio que não saiu. Ah! Os carros então, tem que tirar os carros. Gente, quem é o dono desse carro aqui, alguém sabe? Carai, só falta esse. Ele mora aí? Entrar lá pra pegar a chave, será? Missão dada, missão cumprida e segue o baile. Aquela vibe de domingo, gente à beça, noite caindo, só pode ter pistinha. Apaga a luz, esquece! 

De algum jeito mágico, todos os trabalhos couberam. Couberam, e se encaixaram. As pessoas vieram, se viram, se divertiram. Leve e junto. Num mundo previsível de editais chatos, um, que foi um pouco de novidade, um pouco de aventura. De algum modo, pra todo problema teve solução. Galera boa de jogo. Era como se a gente tivesse experimentando, nesse microcosmo, uma democracia possível. Uma democracia que a gente inventou, na base do afeto. Um lugar meio coração de mãe: o que não cabe, ahh meu filho, faz caber! Tinha lá uma bandeira, branca e tinha uma esperança, bem verdinha, no meio. 

“Esperança como bandeira”, 2022. Rudolf Kurz

nascida e criada em são gonçalo, carolina lopes é formanda em história da arte pela uerj, crítica de arte e cultura e artista. desenvolve suas pesquisas, acadêmica e artisticamente, principalmente através do gesto de autoproclamação, desdobrando conceitos e questões como mulher e feminismos, decolonialidades, fé e magia, e imaginação. 

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