Desvio Indica

Entrevista Pandro Nobã

Atotô, Acrilica Sobre Tela, 0,90×0,70, Serie Intuição, 2021

Pandro Nobã é artista urbano autodidata, nascido e criado no bairro da Penha, subúrbio do Rio de Janeiro. Atuante nas ruas desde 1998, dedica parte do seu tempo a trabalhos ligados à Arte Educacional. Em sua caminhada, Pandro Nobã atuou como instrutor de graffiti em escolas públicas, projetos sociais e dentro de instituições de medidas socioeducativas. Hoje em dia seu trabalho aborda temas ligados à sua ancestralidade e a sua vivência nas religiões de matriz afro-brasileira. Para além das ruas, o artista se aventura em pintura de telas e em objetos de barro que são geralmente utilizados nos cultos sagrados de terreiro.
Insta // Facebook // Site

Barco de Santo, As Josefinas, Campo Grande, RJ, 2021

_ Pandro, na condição de artista autodidata, a arte educação é parte da sua vida enquanto indivíduo, aprendendo com seus próprios caminhos. De que maneira você encara esse autodidatismo?

Encaro com orgulho, de tudo que aconteceu no início e que ainda se mantém vivo na essência. Ter começado sem ter noção concreta do que estava fazendo, agindo intuitivamente na maioria das vezes, não tinha informação. O único contato direto com a arte era na escola pública onde estudei, e em casa com minha mãe que é professora – isso foi um dos principais fatores colaboradores – e com meu irmão mais velho que já rabiscava pichações nas folhas de caderno e aquilo me encantava. Eu já gostava de desenhar, copiava os desenhos das revistas em quadrinhos e meu primeiro contato com o spray veio em 1996, aos 11 anos de idade, quando pichei pela primeira vez uma parede de uma das principais ruas da Penha, aquilo foi o “auge” pra mim. Nessa época vivíamos a cultura do funk de galera e foi nessa atmosfera que eu cresci. Logo depois comecei a ver umas pinturas pelas paredes da cidade e achava aquilo incrível, mas não sabia do que se tratava. Comecei a rabiscar nas folhas desenhos parecidos com esses que via nos muros do centro do Rio de Janeiro. Em 1998, já estava ciente que aquilo era Graffiti, um tipo de arte feito com spray e “tinta de parede”. Fui atrás de mais informações até que um dia vi os camaradas da Nação Crew pintando um mural próximo à estação da Penha e fui lá buscar o que eu estava precisando. Foi aí que fiz meu primeiro graffiti e nunca mais parei.

Logo no início dos anos 2000 criei junto a outros amigos artistas o grupo “Artistas Urbanos Crew” e expandimos as ações pra outras localidades do RJ. Nesse início, rolou uma oficina de graffiti no C.E Clovis Monteiro em Manguinhos, o que fez reunir mais artistas de outros bairros e de diferentes estilos.

Após participar dessa atividade tivemos a ideia de montar nossa própria oficina e passar para a molecada aquilo que aprendemos nas ruas. Lembro que tinha uma casinha lá dentro da Grota no Complexo do Alemão e lá foi o primeiro contato com a Arte Educacional, não tínhamos estrutura, mas vontade não nos faltou. Depois disso surgiram vários trabalhos como “oficineiro” em projetos sociais, escolas públicas e até em instituições de medidas socioeducativas para menores infratores.

Um dos trabalhos mais marcantes pra mim, foi a Oficina de Graffiti dentro do Instituto Padre Severino, onde crianças e adolescente cumpriam pena por crimes de variados tipos. Foi um divisor de águas, pois aquela realidade era muito próxima da que eu vivia nas ruas, e foi ali que tive a certeza que eu queria trilhar esse caminho da arte educação. Hoje já perdi as contas de quantas escolas, em sua maioria, públicas, já realizei trabalhos e isso é o que mantém minha chama acesa. Me sinto feliz por poder “devolver” aquilo de melhor que a rua me deu.

Carolina Maria de Jesus, Projeto Voltando a Escola, 2021

_ Nascendo e vivendo na periferia do Rio, como você enxerga o reflexo dessa vivência nas suas produções?

A minha vivência nas ruas Penha foi essencial para a minha construção como artista urbano. A cultura do “xarpi” (pichação) faz parte do cotidiano do subúrbio, então essa origem foi uma importante base para o meu caminho. Toda a atmosfera encantada que envolve as ruas foi mais que necessária, os bailes funks, o basquete na praça, as conversas com os mais velhos nos bares, isso tudo serve como inspiração até hoje.

Orí de Oxum, Spray e Acrilica, Serie ORÍ, 2020

_ Além de autodidata, você é arte educador, como você passa a atuar nessa área?

Eu passei a atuar de forma constante como arte educador de uma forma muito natural, a intenção é sempre manter a essência do Hip Hop viva, essa essência da coletividade que se faz presente nessas oficinas, quando estou passando adiante as técnicas que aprendi nas ruas. Além disso, a arte urbana “graffiti” é um agente social de suma importância e de fácil aceitação e reconhecimento nas escolas, projetos e comunidades cariocas.

Orí de Xangô, Spray e Acrilica, Serie ORÍ, 2020

_ O movimento do grafitti vem recebendo atenção maior dentro das artes visuais ao decorrer dos anos. Vindo a ilustrar escolas, murais de rua, e até mesmo galerias. De que maneira você percebe essa mudança e como ela teve impacto na sua vida?

O reconhecimento desse movimento se faz muito importante e é fruto de muita luta. Lá no início era tudo muito difícil e hoje poder ver a Arte Urbana de uma forma geral ocupar esses espaços é muito gratificante. Essa mudança é muito positiva ao meu ver, ela oferece a possibilidade de que possamos trabalhar com aquilo que amamos. O graffiti sempre foi uma arte marginalizada e hoje, cada vez mais, ganha espaços em grandes projetos de murais pela cidade, exposições e galerias, o que deu a possibilidade de artistas como eu terem uma renda extra. Acho que muita coisa pode melhorar e acredito que a comunicação e informação é a melhor forma disso acontecer. Vamos em frente!!!

Vô João_ Tecnica Mista em papel Canson A3 _ Serie Intuição

_ Atuando em instituições de medidas socioeducativas, acredito que você tenha encontrado muitas pessoas, de diversos lugares e com diversas histórias. A importância de artistas como você nesses espaços tem a capacidade de mudar vidas. Dentre os trabalhos realizados nesses espaços, acredito que você tenha se deparado com diversos encontros marcantes. Pandro, é impossível negar que a arte tem o potencial de mudar vidas. Além das mudanças ocorridas na sua vida pela arte, você também atua enquanto agente socioeducacional e cultural. Ampliando o potencial transformador da arte. Você poderia contar um pouco sobre esse processo?

Trabalhar com arte educação é poder ver de perto o quão potente é a arte nos meios sociais. Em todos esses anos de carreira, além de tudo que aprendi e amadureci, é muito gratificante poder ver a transformação de locais e pessoas através dessa ferramenta tão importante. Já vivi experiências incríveis, digo que a arte me salvou e ainda me salva todos os dias. Escutar o relato de pessoas que já fizeram oficina comigo dizendo que de certa forma a arte modificou a maneira dessas pessoas enxergarem o mundo é mais que uma vitória. O graffiti é uma das artes mais democráticas que existem, as pessoas podem acessar nas ruas não só a arte em si, como também o/a artista. Mesmo sendo um clichê essa frase, é real, digo por experiência própria, “A arte salva”.

Curso Livre de Artes, Cine Clube Tia Nilda, 2021

_ Religiões de matriz africana ainda sofrem diversos preconceitos no Brasil, tomando como exemplo os ataques violentos e criminosos sofridos pelos terreiros na Baixada Fluminense nos últimos anos, com a destruição e ataques diretos aos mesmos. Enquanto artista, de que maneira você aborda a arte educação em seus trabalhos religiosos?

Pra mim é de suma importância a afirmação que faço através do meu trabalho, mesmo hoje em dia tendo muitas pessoas de axé fazendo arte e falando sobre ainda estarmos muito longe desse racismo religioso acabar, na verdade, nesse momento complicado, e com esse governo desgovernado, a intolerância só aumenta. Lidar com o preconceito e racismo não é nada fácil, é cansativo e doloroso.

Oficina de Graffiti, Cine Clube Tia Nilda, Favela do Dourado, Cordovil, 2021

_ Ao se trabalhar arte religiosa/ arte e religião, você trabalha também a valorização histórica de religiões de matriz africana. Durante conversas, eventos, criações de trabalho e até mesmo no seu cotidiano, como você aborda o preconceito?

Eu combato todas essas questões através do meu trabalho, passando informação para que as pessoas possam romper com esse preconceito imposto pela sociedade.

Oficina de Graffiti, Cine Clube Tia Nilda, Favela do Dourado, Cordovil, 2021

_ Existindo em diversos espaços durante sua trajetória enquanto artista e arte educador, quais desejos você tinha e já conseguiu realizar, e quais desejos você ainda sente a necessidade de realizar?

Durante minha trajetória já conquistei muitos sonhos e alcancei metas. Muitos por instinto, sempre gostei muito de trabalhar com crianças e adolescentes e isso carrego comigo durante toda essa caminhada de artista de rua. Escolas, projetos, já passei por várias comunidades cariocas devolvendo um pouco do que a rua me deu. Agora minha meta é conseguir fazer uma exposição individual, não é nada fácil, começando agora nesse mundo de pintar tela, e já percebi que esse mercado é bem cruel e excludente, mas nada nunca foi fácil pra mim, seguirei em frente com a Fé nos meus Orixás logo logo EXÚ abrirá os caminhos pra mim.

Oficina de Graffiti, Projeto Gol de Letra, Caju, 2018
Originaria dessa terra, Cordovil, 2021
Portal Afrofuturista, Artistas Pablo Poder, Pandro Nobã, Favela do Dourado, Cordovil, 2021
Projeto Manicômio Nunca Mais, Instituto Nise da Silveira, 2020
Série Orí _ Projeto Barão Vive _ Ilha do Governador 2021
Série Orí _ Projeto Plantou Colheu _ Angra dos Reis
Titulo _ Cabocla Jureminha _ Tec_ Spray _ Projeto Firmando Ponto 2019
Vovó Cambinda _ Projeto QR Culture _ 2020
Yawô _ Mogi Art Fest _ Mogi das Cruzes SP
Rezadeira, Acrilica Sobre, Tela, 0,90×0,70, Série INTUIÇÃO, 2021.

Exposições

Maria Carolina de Jesus para o projeto Voltando a Escola, C.E Clóvis Monteiro.

Oficina de Graffiti com alunos do Projeto Gol de Letra, 2017.

Oficina de Graffiti com Alunos do EDI Willian Arjona, 2017.

Projeto Transforma Escola Municipal Emma D’Ávilla, Comitê Olímpico Brasileiro, 2019.

Quadra do IAPI da Penha, Projeto ARTe na Rua promovido pela Rede Globo 2020.

Todo menino é um Rei, Projeto Revitaliza Graffiti Santa Teresa, 2021.

Eu só quero é ser feliz, Graffitaço LABJACA, Jacarezinho 2021. 

Exposição Coletiva – UIA, Rio do Amanhã, Casa Shopping RJ 2021. 

Mostra Grão de Arte, Grão Coworking RJ, Exposição Coletiva, Cazota Bar.

Pintura artística em dois totens para Granado Pharmácias, Pão de Açucar, Aeroporto do Galeão, comemoração de 150 anos da empresa, 2021.

Curso LIVRE de Arte Cine Clube Tia Nilda, 2020/2021.

Oficina de Graffiti Cine Clube Tia Nilda, 2021.


Clarisse Gonçalves 1998. Graduação em história da arte em andamento na UERJ. Pesquisadora e historiadora da arte situada no Rio de Janeiro. Atualmente pesquisa manifestações artísticas periféricas, negras, e afrodescendentes no estado do Rio de Janeiro. Bolsista do projeto “Mapeando Arte e Cultura Visual Periférica”.

2 comentários

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: