Crítica quinzenal Juliana Cunha

As Ruínas de Mariana Enríquez e Clara Machado

No mês passado, tive o prazer de ler As coisas que perdemos no fogo, livro de contos da autora contemporânea argentina Mariana Enríquez. Dentre as histórias mais surpreendentes, me deparei com “A casa de Adela”, na qual três crianças decidem fazer uma excursão à casa abandonada do bairro onde moram. Ao lá entrarem, encontram não só as ruínas de um passado destruído pela ação do tempo, mas potes com pálpebras, dentaduras, unhas e outros elementos grotescos. Os eventos sobrenaturais que lá ocorrem, assim como o desaparecimento ou morte de uma personagem, marcam a história dos sobreviventes com um trauma que os acompanha até a vida adulta.

Através do conto de Mariana Enríquez, no qual a casa exerce papel fundamental no jogo entre memória, infância, corpo e morte, lembrei do Site Specific que visitei em 2018, obra da artista carioca Clara Machado. Um cruzamento latino e contemporâneo entre duas mulheres movidas pelas questões do tempo e dos horrores que o ambiente domiciliar pode resguardar.Ruínas foi feito no apartamento da falecida avó da artista, que era, na época, uma espécie de casa abandonada. Após cerca de seis meses de imersão no ambiente em que morou na infância, Clara Machado nos chamou para visitar o espaço, assim como Adela convida seus amigos para a aventura sombria. Ocupou quatro cômodos da casa com suas obras, a sala, os dois quartos e o banheiro.

Clara Machado, Exéquias, 2018. Materiais variados. Foto: Clara Machado.
Clara Machado, Sem título, 2018. Tecido e terra. Foto: Clara Machado.

O espaço mantinha a estrutura do tempo da avó, como o piso de taco e as paredes brancas, mas revelava as marcas do tempo nas manchas amarelas de infiltração. Nós entrávamos pela sala, onde encontrávamos, à esquerda, um lençol branco pendurando em um único ponto e preso ao chão por um monte de terra, como um fantasma preso ao solo, incapaz de partir. Ao lado dele, ficavam as Exéquias, esculturas pequenas de dentes, ossos e objetos dourados.

Exéquia é o nome dado às cerimônias que homenageiam os mortos, e parece ser o tema perfeito para a experiência que a artista propõe: uma cerimônia fúnebre, que pensa sobre a morte através do que sobrevive e do que se perde com ela.

De frente para a porta da sala havia uma caixa quebrada, tal qual um oratório corrompido, com um único dente, elemento comum na obra da artista. Junto aos cabelos e às unhas, ele é um sobrevivente do corpo morto. Ao lado, como um obelisco apontando para baixo, ou como a morte descendo no fio da chuva, uma agulha pendurada em uma linha. Ainda nessa sala, de frente para esses objetos, havia uma prateleira com uma pequena escultura de bebê mumificado, que repousava em uma caixa com um espelho meio voltado para a múmia, meio voltado para nós.

Na sala seguinte, o primeiro dos dois quartos, a morte dar lugar à fertilidade, ao amor, ao sexo e seus dessabores. Nele, assim que entramos, encontramos uma aliança antiga, de material nobre, quebrada. Ela está ao lado da fotografia de uma noiva de rosto difuso, que sabemos ser um tratamento da artista em uma fotografia de sua avó. Ao lado da imagem, há um delicado pedaço de seda manchado com sangue menstrual.

Diante das imagens, em um canto escuro do cômodo, o segredo sórdido do amor é revelado. Há um conjunto formado por espelhos quebrados, que replicam a cena da foto, do anel e do tecido manchado. Na frente deles, encontramos um pote de mel, para o qual pequenos insetos se dirigem, em busca do doce, hipnotizados. Ainda nesse ambiente há uma almofada fofa e branca onde a artista reproduziu uma monotipia de seu corpo nu em vermelho.

No quarto anexo, a artista evoca o ambiente infantil e traz os terrores que nele se escondem, como acontece no conto de Mariana Enríquez. Uma manta com a qual cobriam Clara na infância é reencontrada e marcada pelo tom amarelado do tempo. Ela serve de tela para uma mancha vermelha, que aponta ali a marca dos traumas e das ruínas da infância. Diante do objeto há uma caixa sobre uma alta estrutura de madeira. Ela serve de caixão para uma escultura de Vênus embalsamada, cujo sexo é revelado através do largo buraco entre as pernas. É a marca da sexualidade desmanchando o universo infantil.

Por último, o banheiro resguarda prateleiras tão assustadores quanto as encontradas em “A casa de Adela”. Elas não trazem potes de pálpebras e unhas, mas recipientes com dentes, ossinhos de parafina no bidê e bolo de cabelo no armário. Relembrar esses pequenos objetos, quase disfarçados no ambiente, me fez pensar sobre o horror provocado tanto pela obra da artista, quanto da escritora. É o lugar em que arte e literatura são invadidos pela memória, pelos mistérios do corpo e pela fatalidade da perda e da morte.

Quando Freud fala do Inquietante em seu artigo de 1919 uma inversão nos é proposta. O Umheimlich (estranho, inquietante, aquilo que deveria ter permanecido oculto) não se categoriza como o oposto direto do Heimlich, palavra alemã que designa aquilo que é familiar e aconchegante. Para o autor, na realidade, o inquietante prevê, para sua manifestação, tal qual um duplo obscuro, a existência de uma familiaridade, de uma coincidência entendida como inumana ou o retorno do universo infantil permeado por um mecanismo castrador.

Segundo remonta o autor, o inquietante nasce na experiência da humanidade primigênia. Ele resulta do acontecimento fora do controle do homem que tem sua repetição interpretada como algo divinatório, profético, fruto de um acaso incontrolável ou imposto. Está presente no animismo primordial e vistos ainda hoje nos objetos e lugares repletos de espíritos, saberes e magias. É a estranheza que nos acompanha ao observarmos as Vênus de Clara Machado, que personificam os ídolos antigos, ou a casa mal-assombrada de Mariana Enríquez, onde habitam mistérios e, quem sabe, espíritos.

Freud diz que na cultura egípcia o inquietante se apresentava no duplo, em uma tentativa de sobrevivência do Eu frente ao poder da morte. O psicanalista aponta a arte egípcia, e sua narrativa da sobrevivência da alma imortal frente ao corpo mortal, como seu principal meio. O uso de materiais duradouros – para eles, o mármore e as pedras preciosas; para nós, os dentes, cabelos, unhas e ossos –; bem como a mumificação e a prática de preservação do corpo para reencontrar a alma na eternidade, ativam em nossa memória o que há de assombroso no enfrentamento do fim da vida.

A experiência é tenebrosa porque se vemos hoje, mais uma vez, seres mumificados – mesmo seres de barro, como os de Clara Machado -, reconhecemos o corpo humano e o inquietante nos toma. Lidamos com a fatalidade de uma maneira que o ocidente se desvinculou, e a morte se faz presente de maneira devastadora. Múmias, fragmentos de corpos e situações interpretadas como sobrenaturais nos levam a experimentar novamente a lógica infantil do medo do escuro e do desconhecido, tema explorado por Mariana Enríquez em seu conto.

Segundo Freud, é no período da infância que o duplo “de garantia de sobrevivência passa a inquietante mensageiro da morte”, como podemos vislumbrar na transformação de amor ao medo de bonecas. É interessante vermos, então, o surgimento de um enfrentamento tão primigênio em ambas as mulheres, artista e literata, do tema. Elas exumam, escondem e rememoram o corpo, nos fazendo lembrar da morte que trepida na vida.

Nesse sentido, suas obras são ativadoras de memórias desgostosas, agudas e inquietantes. São ruínas, indícios feitos de sangue, escombros e abandono, que causam desconforto. Podemos não saber dizer exatamente o que incomoda, desviar do cheiro e morder os lábios para guardar dentro de nós. Mas é inesquecível encontrar a morte.

REFERÊNCIAS

ENRÍQUEZ, Mariana. As coisas que perdemos no fogo. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2017.

FREUD, Sigmund. O inquietante. In: Freud (1917-1920) “O homem dos lobos” e outros textos. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. p. 329 – 376.

MACHADO, Clara. Habitar é deixar rastros. Revista Círculo de Giz, n.2, 2020. Disponível em: https://c70d262b-00cd-4d84-aaed-2b5c15327d1d.filesusr.com/ugd/cf9c47_73fab0fd5ff44aecbba332c75baf39cf.pdf


Juliana Cunha é escritora de terror, mestre em artes pelo PPGARTES / UERJ e bacharel em história da arte pela mesma universidade. Estuda arte moderna, com foco no expressionismo e nas questões da subjetividade, da morte e do maligno em distintas manifestações artísticas. É Assistente de Curadoria da Casa Museu Eva Klabin (2021) e atuou como Assistente de Coordenação do Setor Educativo da Casa Museu Eva Klabin entre 2017 e 2021.

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