Crítica quinzenal Noah Mancini

Cobertura da 2ª Mostra IFÉ de Cinema

Do dia 31 de Maio a 05 de Junho em Niterói (na sala Nelson Pereira do Santos), Rio de Janeiro (no Cinema Nosso) – e virtualmente – aconteceu a 2ª Mostra de Cinema IFÉ.

Composta de 20 produções de realizadores negres, indígenas e LGBTQIA+, a exibição reuniu um conjunto de obras contemporâneas nacionais, majoritariamente autônomas ou sem grandes recursos. Divididos em 5 painéis temáticos, são variadas as expressões diaspóricas do Brasil de 2022: vemos e ouvimos insurgências, dissidências, desobediências.

Me propus a cobrir o evento, acompanhar esse apanhado de trabalhos pela programação online, e os comentários sobre as obras que aqui escrevo, os fiz na ordenação proposta pela curadoria.


No primeiro painel de curtas, “Corporificar o que há de político no ser”, o título já entrega: seres políticos em gamas de corporificação. Reluzem por existir, sucedem ações, agindo na confirmação de suas trajetórias.

“Clandestyna” (2019), de Duca Caldeira traz um documentário que fala sobre três travestis pretas artistas, moradoras da Baixada Fluminense, que tentam sobreviver no Brasil. Transformam o eu e o redor. Gradativamente, passo a passo, imprimem suas trajetórias no mundo, autoras e atrizes de si.

A vídeo-performance “Pedra Cantada em Assentamento” (2021) de Aretha Sadick, em forte ligação com os orixás da família da palha, como Obaluaiê e Oxumaré, acentua os poderes da cosmovisão afro-brasileira. Retomando aspectos míticos, firma campos energéticos de força, nos diz: “estamos aqui, ficaremos aqui, assentamos aqui”.

Já as performers do fim do mundo em “Themonias” (2022) de Rafael Bqueer anunciam tempos de queda. Divididas em atos, as apoteóticas abre-alas não estão satisfeitas com as estabilidades (cis)mícas. Em golpes iconoclastas, lacrações marciais, táticas para abalos estruturais, desmantelam e inventam diegeses.

Enquanto uma bate cabelo contra todo o barroco português – e qualquer patotinha rococó ou clássica, que se acabem todas juntas – num picumã igual a um chicote, em trilha dinâmica, uma outra mulher-maravilha se põe frente à estátua da liberdade da Havan, na flâmula do livramento mercantilizado, levanta seu cu aos céus, em infinita destreza da cuceta. Opostas ao nefasto agouro da maldição colonial as histéricas bichas nativas da terra saem à rua em comunhão, a legião das monstras é captada pelos olhares atentos e curiosos dos passantes. Pois embora pareçam de outros globos, são seres intraterrestres, trazem brutas verdades deste chão, emergidas da profundezas do solo, do magma da criação.

Frame de Themônias

Na inventiva convenção das manas, o documentário celebrativo e performático “A Noite das Panteras” (2021), dirigido por Paulo Victor Lino e Wallace Lino, retrata sujeitos criando significados basilares para a construção da própria identidade. O cotidiano é suporte da subjetivação, em freestyle numa roda de poesia, sublimam suas dores e glórias.

Em gestos de autoamor, num exercício comungal, cantam, dançam, gritam, riem, pulsam verve. A despeito de todos espaços e vozes negados anteriormente, não há conformidade: no fervo da laje, geram fortalezas, zonas autônomas de poder, fundamentos de emancipação. Quilombos são impérios.

No segundo painel, “Buscar a si é encontrar os seus”, do âmago às bordas do artista, elaborações de poéticas, pesquisas que cavam, rastreiam territórios íntimos, fazem brotar encantos únicos.

O documentário “Cidade entre rios” (2021), de Leonardo Mendes e Weslley Oliveira, procura explorar alguns cantos insólitos que a “modernização” urbana trouxe ao meio ambiente. Poluição, lixão, descartes, dejetos do progresso acabam com um rio, artéria vital da cidade. Caminhando por veredas de difícil atravessamento, deambula na apocalíptica tecnocracia do que restou.

O uso do arquivo histórico chega a soar irônico na exposição divergente entre a propaganda da cidade pelo estado e as fotos jornalísticas da desigualdade social com a falta de saneamento básico para a população.

Os jovens documentaristas vão atrás de depoimentos de pessoas que vivem com o rio. Ali, um senhor apresenta um conto do peixe que o habita, esse peixe engole homem. Tal história ativa uma viagem existencial, nas vias das águas, não só denunciando a negligência ecológica, mas deixando-se inundar pela natureza que nos faz seres viventes.

Em fluxos de rios, cachoeiras e mares, “Trava Minguante Trava Crescente” (2020), de Nica Buri, escoa reminiscentes cascatas de afetos. Registros de travessias sensíveis, estradas percorridas em corpo, ideia, nos miolos de dentro da gente, na posição das estrelas, nas fases da lua, nas ondas e sonhos. A sobreposição de numerosas fotografias nos atira em um vasto acervo, ciclos de carinho nutridos em declaração aberta de amor, anamnese verbográfica, fantasia expelida da paixão, carta para si, para as suas e para o mundo.

Frame de Trava Minguante Trava Crescente

O curto e contemplativo “Aracá” (2021), de Abiniel João Nascimento, retira precipitações e, na ciência da observação e do lido energético com a matéria, esmiúça transes, desdobra o agora.

Já a espiritualidade em “Meus santos saúdam teus santos” (2021), de Rodrigo Antônio, traduz-se em mensagem à familiar, lembranças de vó no terreiro. O corpo estático em meio a tantos lugares torna-se perene, como atos de fé.

No terceiro painel “Ressonâncias e ancoragens do sensível”, recuos, silêncios: filmes que de alguma maneira trazem violências incutidas historicamente na população racializada.  Pede-se escuta ao revisitar temores.

Abrindo a sessão, o curta “Vinte de Novembro” (2011), de Ethel Oliveira, faz passagens pela cidade do Rio, em poema declamado homenageia a história de Zumbi, emblema da resistência afro-diaspórica no Brasil colonial. O percurso por meandros da paisagem carioca, de monumentais distâncias, passa pelo monumento à Zumbi dos Palmares. Desvela a secular lorota abolicionista. Dia 20 de Novembro é o dia da consciência negra, dia de Zumbi.

Já na performance “Repertório nº 2” (2021), de Davi Pontes e Wallace Ferreira, os sons da dança em pisos, pulos e palmas que pelo espaço ecoam, preenchem o salão com uma coreografada marcha. O ritmo percussionado pelos pisantes embala um embate. Na pouca variância de movimentos, essa guerra esquiva, encara, desliza, sua. Pausa, finda.

A história de “Poeira” (2021), dirigido por Alisson Severino, é fofoca tenebrosa. Caso complexo de família, personagens desvanecidos com a própria confusão da realidade. Em narração angustiante de diferentes locutores – que se conhecem  e contam versões de um mesmo acontecido –  traz uma brisa pesada de digerir. A história não é tão fácil assim de se entender, pois não é fácil de contar também. Nossa compreensão suspensa, na atmosfera acorrentada no mistério de um sonho, partilha de um não lugar com os próprios narradores.

Acrescentando a incerteza, os corpos são ausentes: pouco aparecem, e quando estão em tela a imagem é difusa, com borrões e tremores, apenas vestígios de gente. Fora da representação figurativa, o uso das fotografias em planos estáticos e a duração do tempo em que as imagens passam na tela, geram curiosos anseios para a elucidação do caso.

A maestral sinceridade na voz dá tom de crueza na veracidade do relato, um áudio de conversa no whatsapp, uma conversa telefônica, um neto e uma vó. Em um cativante terror psicológico, nos absorve em pesadelo assistido.

Frame de Poeira

No romance lésbico de “Luazul” (2021), dirigido por Letícia Batista e Vitória Liz, vemos duas garotas se identificando enquanto par. Um encontro ocasional é ponto de partida para o achegamento afetivo. Nas proximidades de seu bairro, entre visitas em casa, churrasco no vizinho e uma pelada no campinho, vivem momentos juntas, nos bons e nos maus dias, na confiança e na dificuldade de se dividir amarguras, estreitam a união. Aconchego em ser amada, amar, lar, canção, guardo a gente no meu coração.

“Mergulho nos breus”, o quarto painel: missões exuzíacas se fazem necessárias, no plantio de outras formas de existir, revivendo alvoradas e crepúsculos milenares. Há de se conhecer os dias e as noites, as calmarias e as tempestades, para encontrar alguma verdade.

No curta “Cambonagem” (2021), de Castiel Vitorino, labaredas de soberano desejo acendem ritos performáticos. Em tranças de raízes, cavidades da mata, emaranhados de galhos, na terra batida, atos invocadores de mistério: cria-se envergaduras, contorções, num movente corpo-totem. Do verbo místico, faz-se cinema-feitiço.

Entre preces e investigações, o vídeo “Oriki para perder o medo do mar” (2021) de Izzi Vitório, lança um olhar para si: retorna aos ancestrais, aos saberes que vieram antes, carrega um pedido. Volta ao que antecede e na busca do autoconhecer, faz escavações internas, encontra Kalunga e seus segredos.

No esfuziante “Viver Distrai” (2021), de Ayla de Oliveira, diante do cancelamento do carnaval por consequência da pandemia, duas namoradas saem num passeio de barco noturno destinadas a celebrar suas vidas pelas águas de Recife. Leve, despojadamente contemporâneo, festeja o fato presente, aprecia os momentos de troca, reverencia o gozo. Perpetua a felicidade, não importa quão efêmera possa ser, festeja por festejar, vive por viver, assim como deveria ser, no devir do prazer.

Frame do filme “Viver Distrai”

Já através do curta religoso “Procure vir antes do inverno” (2021), Ventura Profana executa um trabalho de edificação. O compromisso com a congregação e os hercúleos esforços devotos, impressos no relato familiar de sua mais velha, tornam-se vislumbres a fim de construir o próprio evangelho. A refeição ungida, contada em ordem cronológica decrescente, e a pintura inaugurante de um centro sacrário, são banquete para regozijar as presenças de Ventura, Bianca Kalutor e Rainha F. Os letreiros da fé estampados nos templos salientam: a obra é a maior ação de amor ao divino, a promessa de certeza é só a glória.

O quinto e último painel “A fumaça ainda guarda o fogaréu”: uma ode à memória. Contamos e recontamos o que já se foi e não se apaga, nuvens que reforçam e retorcem noções na inesgotável fuligem do não esquecimento.

Na videoarte “Há entre nós um vazio obliterante” (2020), de Iagor Peres, um micro-universo das coisas, O zoom investigador entra em entranhas e nervuras, Criações de novas esculturas, novas visões que se modificam com e pelo tempo, Partícula, pó, vento.

A ficção “Usina Desejo contra a indústria do medo” (2021), da Amanda Seraphico, Clarissa Ribeiro e Lorran Dias, conta a história de dois jovens amigos que dividem as contas. Enquanto Penélope tenta vender packs de fotografias de pé em meias eróticas, Bill trabalha na cinemateca há pouco tempo e teme cortes do governo. Na metalinguagem com o audiovisual, aborda problemas históricos da cinematografia brasileira, como apagamentos e incêndios.

Penélope sugere consultarem certa guru que ela conheceu no Youtube. Marcam a consulta de tarô e vão: lá, na ligação, a figura misteriosa de Oráculo os transfere, pela tela do notebook, a um metaverso espiritual. A sedutora musicalidade nos embala nesse cosmos esotérico, em viagens virtuais, vidências dúbias, o texto-enigma de Oráculo, em suas frases serenamente proferidas, sopra indagações, provocações, reflexões.

A redimensionalização de telas, o uso de filtros de stories, a sobreposição de memes, e todo o pop que pipoca nas cenas proporciona lisergia e comicidade nessa transposição a outras dimensões interpretativas, Presos em alguma data-base, resta aos dois amigos esperar a saída da aventura que se meteram.

Frame de Usina Desejo

Nessa sessão, tive o prazer de também exibir um curta meu, “Socialights | Jorge Lafond” (2020), cinema de arquivo, montagem com imagens retiradas da internet do ator Jorge Lafond, mais conhecido por seu papel na televisão como Vera Verão. As dificuldades encontradas, que creio influenciarem no produto exibido, foram: certa incompletude de material encontrado, como vídeos não disponibilizados por emissoras, impossibilitando versar outras narrativas; qualidade do material, não só na resolução da imagem mas na escuta do som, diversas vezes baixo ou com ruídos. De resto tentei revisitar um pouco dessa personalidade icônica.

No documentário de André Sandino “Canções de uma bicha velha” (2020), sobre o artista Márcio Januário, poéticas auto-biográficas vêm à tona, Paisagens nas confissões do tempo na vida de uma bicha, a janela de casa e o palco adquirem convidativo aspecto cênico. Em um saudoso envolvimento, nos declara casos e canções, – gostosa nostalgia da dourada juventude – ao mesmo tempo que denuncia o etarismo com a terceira idade, e os padrões sociais do culto à juventude, Toda jovem envelhecerá.

É um filme processual não só por explicitar sua feitura mas por marcar um processo vivido, mostra a sexualidade em constante debate, abertura para a vontade e a falta dela, contradição, do exercício da libido humana, da consumação do regalo, bem-te-quero, não-te-quero.

Vertendo melodias, as canções são âncoras lúdicas de uma subjetividade que nos inebria em ensejo cancioneiro, show de representação, maré de sentimentos, memorabilia de experiência vivida.


Em sua segunda edição, a realização do IFÉ mais uma vez reforça a importância de dar vazão às contra-colonialidades. Na busca por efetivações de suas poéticas no mundo, além da diegese fílmica, os trabalhos tocam em questões singulares e nevrálgicas capazes de perceber o país e a nós mesmos.

Além da exibição dos vídeos, foram promovidos seminários presenciais com convidades, e debates online com os realizadores, estes que podem ser conferidos no canal do Youtube. Tais práticas de fomento ao debate e à produção são imprescindíveis

A equipe da 2ª Mostra de Cinema IFÉ é composta por Ana Beatriz Silva e Mariana Campos na direção; Ana Beatriz Silva na coordenação de produção; Mariana Campos na coordenação de programação; Anti Ribeiro, Fábio Rodrigues Filho e Milena Manfredini na curadoria; Priscila Rodrigues na coordenação de comunicação; Rahzel Azec nas mídias sociais; Marcella Pizzolato como designer gráfica; Laís Monteiro na assessoria de imprensa; Edição de vídeos e vinheta por Bebel Rodriguez; Gabriela Gonçalves na coordenação de ações formativas; Ana Acioli na produção técnica; assistencia de produção por Dai Ramos e assistência técnica por Tali Ifé.

A relação de filmes exibidos e demais atividades podem ser encontrados no Instagram da Timoneira Produções. O evento é realizado com patrocínio e apoio de recursos culturais da Prefeitura do Rio de Janeiro e Niterói.


Nascido em 1996, Noah trabalha como artista multimídia e explora majoritariamente campos da escrita, do vídeo, e das artes plásticas. É proprietário da marca Debauxe e do espaço de arte Casa Povera.
Graduado no Bacharelado Interdisciplinar em Artes & Design pela Universidade Federal de Juiz de Fora e mestrando em Cinema e Artes do Vídeo pela Universidade Estadual do Paraná. Possui curso técnico de Aprendizagem Industrial em Confecção e Moda pelo Senai Luiz Adelar Scheuer.

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