Crítica Gabriela Lúcio

“Happy Birthday Mr. President” e os não-limites do poder

Em 2 de maio de 2022 aconteceu o MET Gala ou Costume Institute Gala, um evento beneficente que visa a angariação de fundos para o Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque. Cada edição do evento possui um tema, e de 2022 foi “Gilded Glamour” algo como Glamour Dourado em tradução livre. O MET Gala é um daqueles eventos que reúne um grande número de ricos e famosos, sendo o maior destaque o tapete vermelho, onde estas pessoas desfilam roupas de grifes famosíssimas e caríssimas, disputando quem consegue representar melhor o tema, ou quem consegue causar mais impacto. E como está cada vez mais difícil se destacar em um evento com 38 anos (a primeira edição foi em 1948), então, o que fazer?

Chegamos ao caso de Kim Kardashian, que no MET Gala de 2022 usou o mesmo vestido que Marilyn Monroe trajou em 19 de maio de 1962 para cantar o “Parabéns a você” ao então presidente estadunidense John F. Kennedy, na Madison Square Garden. Devido à natureza do evento, o vestido ficou então conhecido como “Happy Birthday Mr. President” (Figura 1). Ainda sobre o vestido, segundo o The Marilyn Monroe Collection (2022), ele foi criado pelo estilista Bob Mackie, feito todo a mão em seda soufflé ou gaze suflê (seda é o material, soufflé a técnica que confere características finas e delicadas, com uma transparência destacada) em cor de carne (no caso, carne de Marilyn Monroe, como esta nomenclatura de cor não referencia a uma tonalidade específica, trataremos aqui que a cor é champanhe) e bordado com 6.000 cristais. O conceito do vestido é um Naked Dress, isto é, uma peça que ressalta o corpo como se estivesse nu, algo muito comum hoje em dia, mas que foi especial na época. O vestido foi produzido diretamente no corpo desnudo de Monroe para que se encaixasse com perfeição nela.

Figura 1: Vestido “Happy Birthday Mr. President”.
Fonte: The Marilyn Monroe Collection, 2022.

Pois bem, um vestido sob medida, em seda delicadíssima e dos anos 60 foi solicitado e usado. Sabe-se que existe toda uma alegação de que Kim Kardashian apenas usou o vestido para passar pelo tapete vermelho e, em seguida, trocou-o por uma réplica. Ou ainda de que a instituição, no caso a Ripley’s Believe It Or Not Museum em Orlando, na Flórida, onde o vestido está guardado, não deveria tê-lo emprestado. Ou melhor, a pergunta-retórica que questiona o porquê da preocupação com um vestido, como se isto fosse um grande problema. A seguir, vamos destrinchar todas estas questões e argumentações.

Primeiramente, Kim Kardashian não deveria usar o vestido, nem por um segundo, nem por um milésimo de centésimo de tempo, o vestido não deveria trajar outro corpo. Estamos falando de uma peça única, de um material único, que destrincha, conta e detalha um período da moda, que é fonte de pesquisa sobre vestuário, classe, materialidade, biografia cultural dos objetos e cultura material. Segundo a estudiosa do campo, Rita Moraes de Andrade, em sua tese Boué Soeurs RG 7091: a biografia cultural de um vestido, afirma que:

A roupa não tem as mesmas propriedades que suas representações imagéticas, como a fotografia, por exemplo. A roupa, elemento da cultura material, tem textura, cheiro, rasgos, manchas e vestígios de corpos que já a usaram como casca de sonhos, pele de inserção social, do pertencer aos tempos e espaços que contornam a sua trajetória (2008, p. 27).

Ou seja, existe uma profundidade para o estudo da roupa que perpassa por sua integralidade, que se perdeu, em partes, com o uso por Kim Kardashian. Ademais, esta atitude abre um precedente: o que impedirá outros ricos e famosos solicitarem peças de museus e/ou coleções? E quem poderá falar não? Com esse questionamento, partimos para segunda argumentação, a de que a instituição não deveria ter emprestado o vestido. É bastante óbvio que o empréstimo (que foi pago por Kim Kardashian, poderíamos dizer então que não é um empréstimo, e sim um aluguel?) não deveria ter acontecido. Porém, vamos ponderar sobre esta questão a partir de um exemplo.

Em 2019, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-Rio) leiloou a obra No 16 (1950), de Jackson Pollock, por 13 milhões de dólares, metade do esperado para quitar as dívidas da instituição. Paulo Vieira, que é conselheiro do MAM-Rio, comentou à Folha de S. Paulo que a venda “não vai quitar as dívidas do museu, mas vai ser um lastro, uma garantia” (Folha de S. Paulo, 2019, Online). A venda foi bastante criticada com motivos e apontamentos corretos, mas há de se pensar a situação que se chega para ser necessário a realização da venda de uma obra de grande relevância do museu a fim de conseguir manter as portas abertas.

Foi isso que aconteceu com o Happy Birthday Mr. President? Não sabemos, e provavelmente não, mas o ponto é: muitos não sabem a real situação das instituições culturais e museológicas, que em sua maioria estão sobrevivendo por aparelhos, lutando para se manterem abertas, sem um orçamento que garanta o pagamento da conta de luz, da água e dos salários dos trabalhadores. Ademais, um outro ponto a se pensar, que provavelmente esteja mais adequado a situação do vestido: a polêmica do uso e do empréstimo/aluguel garantiu espaço na mídia, muitos blogueiros de moda acharam o uso da peça algo incrível, único, mágico, e todo este espetáculo garante as curtidas, os compartilhamentos, e consequentemente, o dinheiro. O pensamento é bastante imediatista, não analisa a posteridade, o acesso a futuras gerações, a pesquisa e a conservação dos objetos. O próprio Ripley’s Believe It or Not!, local onde a peça está, informou o seguinte:

Por um período limitado, o vestido do ‘Happy Birthday’ de Marilyn Monroe – e agora também o look de Kim Kardashian no Met Gala 2022 – ficará em exposição no Ripley’s Believe It or Not! de Hollywood. Kim Kardashian visitou a atração em Hollywood para ver a sua peça mais falada do Met Gala mais uma vez. Visitantes já podem ver o vestido – agora avaliado em US$ 10 milhões (G1, 2022, Online).

O uso da peça por Kim Kardashian – que é uma milionária (ou bilionária) bastante bem quista por muitas pessoas, especialmente por jovens – garante uma camada de relevância para esta peça com este público. Porém, garante também a camada que amedrontou nós, conservadores-restauradores ou estudiosos e pesquisadores do campo do vestuário: o dano. E aparentemente, ele aconteceu. Em 13 de junho de 2022 o Instagram The Marilyn Monroe Collection (@marilynmonroecollection) postou algumas fotos e vídeos do estado de conservação antes e após o uso. Nota-se nas imagens (Figura 2) o esgarçamento do tecido, principalmente na área dos fechos, linhas soltas, a perda de alguns cristais, outros aderidos apenas por um fio e um desfiamento na alça (Figura 3). A própria página do Instagram do The Marilyn Monroe Collection fez o seguinte comentário:

Apenas no caso de você ter perdido… Cristais faltando, e alguns pendurados por um fio. O vestido, em exibição no local de Ripley em Hollywood em 12 de junho de 2022. Compartilhado comigo por@1morrisette. @ripleysbelieveitornot, Valeu a pena? (The Marilyn Monroe Collection, 2022, Online, tradução da autora).

Figura 2: Vestido com danos após o uso.
Fonte: The Marilyn Monroe Collection Instagram, 2022.
Figura 3: Desfiamento na alça.
Fonte: Diet Prada Instagram, 2022.

Antes da peça ser usada por Kardashian, segundo o site Vogue, “o vestido estava sendo mantido em um cofre escuro, a 20ºC e com 40-50% de umidade”, parâmetros estes adequados à conservação de materiais têxteis. Destaca-se aqui que alguns dos fatores de deterioração dos objetos são a flutuação e a inadequação da temperatura (T) e da umidade relativa (UR) e a luminosidade. E a partir do momento que uma peça é retirada de seu acondicionamento com iluminação, T e UR adequadas e constantes, e enfrenta uma série de adversidades, mudanças climáticas e de luminosidade, além de ser trajado, a possibilidade de dano é bastante considerável.

Ademais, a página do Instagram Diet Prada (@diet_prada) postou um vídeo (Figura 4) onde é mostrado o momento em que Kim Kardashian está trajando o vestido. Nota-se sim o uso de luvas – uma diretriz básica para manuseio de materiais musealizados ou presentes em acervo – mas destaca-se o movimento contínuo na peça,as mãos são arrastadas, tentando fazer com que o vestido entre em Kardashian – o que não acontece, posto que a roupa não fecha na região traseira. É válido comentar que Kim Kardashian já se pronunciou e disse que não causou qualquer dano ao vestido. E esta discussão continuará até se verificar efetivamente se os danos foram causados pelo uso ou não. É importante não eximir a responsabilidade da instituição, mas é válido atentar que o dinheiro e o capitalismo oferecem um tipo de poder que exime o que é certo e errado e permite que uma pessoa como Kim Kardashian possa solicitar o uso de uma peça deste tipo.

Figura 4: Print da página do Instagram @diet_prada com a equipe trajando o vestido em Kim Kardashian.
Fonte: Diet Prada Instagram, 2022.

Finalmente, a última ponderação, desta vez retórica: porque se preocupar com um vestido. É bastante desanimador notar o tom de desdém desta questão, advindo muitas vezes de trabalhadores de cultura e até artistas, categorias tão desvalorizadas e igualmente desprezadas. O estudo do vestuário é uma categoria absolutamente válida, plural e que perpassa das classes abastadas às classes mais pobres. Podemos citar por exemplo o artigo de Rita Morais de Andrade, “Fascinação”, 1909: um retrato do racismo mediado pela moda na obra de Pedro Peres, que comenta as questões raciais através do vestuário; temos ainda o interessantíssimo O casaco de Marx: roupas, memória, dor de Peter Stallybrass; e cito ainda a pesquisa que realizo com viés de gênero, onde, através das roupas musealizadas, busco desmistificar e trazer à tona Maria Augusta Rui Barbosa para além de seu esposo, Rui Barbosa.

A questão é, o estudo e a produção de roupas sempre foram práticas desvalorizadas e secundarizadas. Sobre a produção, Teresa Cristina Toledo de Paula (2012), em seu artigo A gestão de coleções têxteis nos museus Brasileiros: perspectivas e desafios afirma que “No Brasil a tecelagem foi, historicamente, uma atividade de escravos e posteriormente dos homens libertos e mulheres pobres, ou seja: uma atividade comum, de gente comum e mesmo considerada como “inferior” (p. 55). Já sobre o estudo, a mesma autora pondera:

O estudo dos tecidos – em vários países do Hemisfério Norte que o fazem por séculos, – aconteceu fora da Universidade: tanto o campo da conservação quanto o da pesquisa sobre tecidos desenvolveu-se, historicamente, fora das fronteiras acadêmicas chegando mesmo, no século XIX, a ser considerado um assunto pouco digno de um homem de letras. Embora reconhecendo que compreender um tecido ou uma roupa exija conhecimentos específicos de uma grade bastante ampla de informações, as críticas à produção intelectual específica sempre foram uma constante (PAULA, 2012, p. 55).

Há de se pensar então por onde perpassa este desdém ao estudo dos têxteis. Há de se tomar cuidado com a desvalorização dos estudos realizados por profissionais e pesquisadores da cultura, este tipo de pesquisa não apresenta resultados imediatos, mas são ações de longo prazo, que serão úteis na constituição de memória, de história e de aprendizados.

Particularmente, acredito que o maior problema ocasionado pelo uso desta peça é o precedente que ela abre: o que impedirá qualquer rico ou famoso de solicitar que o quadro X seja instalado em sua sala para uma reunião de amigos, em troca de alguns milhões? Ou que o xale Y seja rapidamente emprestado a outro milionário rapidamente, apenas para uma foto? É utópico esperar ética do capitalismo, mas agora, quais serão os limites de acesso dos ricos? O que o dinheiro não pode comprar?

Cabe a nós, trabalhadores, pesquisadores e instituições de cultura resistirmos, como sempre fizemos.


Extras:

Outras imagens e vídeos do vestido disponíveis nos links abaixo:

1. https://www.instagram.com/p/CevnFm_LnD7/

2. https://www.instagram.com/p/Cevu17DvXy7/

3. https://www.instagram.com/p/Cew-QV7s0ne/

4. https://www.instagram.com/p/Cext-0cOmRh/

5. https://www.instagram.com/p/CezpIWbjYG9/

6. https://www.instagram.com/p/CewrzLcObZv/

Marilyn Monroe Sings Happy Birthday Mr. President to JFK | Netflix

REFERENCIAS:

ANDRADE, Rita Morais de. Boué Soeurs RG 7091: a biografia cultural de um vestido. 2008. Tese (Doutorado em História), Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2008.

ANDRADE, Rita Morais de. “Fascinação”, 1909: um retrato do racismo mediado pela moda na obra de Pedro Peres. In: CIMODE 2016 – Tercer Congreso Internacional de Moda y Diseno, 2016, Buenos Aires. Atas do CIMODE 2016, v. 1. p. 1-8, 2016.

Diet Prada Instagram. It appears that Marilyn’s iconic “Happy Birthday Mr. President” dress, which was custom made for the actress in 1962, is damaged after Kim Kardashian wore it to the Met Gala. Disponível em: https://www.instagram.com/p/CewrzLcObZv/. Acesso em 15 jun. 2022.

Folha de S. Paulo. Pollock do MAM-Rio é vendido em Nova York. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/02/pollock-do-mam-rio-e-leiloado-em-nova-york.shtml/. Acesso em 15 jun. 2022.

G1. Vestido de Marilyn Monroe usado por Kim Kardashian: Seis mil cristais, recorde de venda em leilões e mais detalhes. Disponível em: https://g1.globo.com/pop-arte/moda-e-beleza/noticia/2022/06/15/vestido-de-marilyn-monroe-usado-por-kim-kardashian-seis-mil-cristais-recorde-de-venda-em-leiloes-e-mais-detalhes.ghtml. Acesso em 15 jun. 2022.

PAULA, Teresa Cristina Toledo de. A gestão das coleções têxteis nos museus brasileiros: desafios e perspectivas. In: I Encontro Luso–Brasileiro de Conservação e Restauro, 2012, Porto. Actas do I Encontro Luso–Brasileiro de Conservação e Restauro. Porto: Editora da Universidade Católica do Porto, v. 1. p. 52–62, 2012.

STALLYBRASS, Peter. O casaco de Marx: roupas, memória, dor. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2008.

The Marilyn Monroe Collection. The personal property of Marilyn Monroe: The “Happy Birthday Mr. President” dress. Disponível em: https://themarilynmonroecollection.com/the-personal-property-of-marilyn-monroe-the-happy-birthday-mr-president-dress/. Acesso em 15 jun. 2022.

The Marilyn Monroe Collection Instagram. Just in case you missed it… Missing crystals, and some left hanging by a thread. Disponível em: https://www.instagram.com/p/Cev-Ur4Lfas/. Acesso em 15 jun. 2022.

Vogue. Entenda a polêmica sobre Kim Kardashian ter danificado o vestido de Marilyn Monroe. Disponível em: https://vogue.globo.com/moda/noticia/2022/06/entenda-polemica-sobre-kim-kardashian-ter-danificado-o-vestido-de-marilyn-monroe.html. Acesso em 15 jun. 2022.


Gabriela Lúcio é conservadora-restauradora formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, com foco em restauração de tecidos e papel, mestranda em Ciência da Informação pela Universidade de Brasília e pesquisadora do campo vestuário. É Editora-chefe da Revista Desvio.

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