Crítica quinzenal Noah Mancini

Um olhar fluminense no Festival Internacional Olhar de Cinema

Durante os dias 01 e 09 de Junho, na cidade de Curitiba, aconteceu o Olhar de Cinema – festival internacional que reúne filmes de diversos países entre quatro salas. A mostra é dividida em núcleos, que ocupam as diferentes janelas de exibição ao longo da semana.

Concentrei meus comentários em trabalhos que de alguma maneira tangenciassem o território fluminense, fosse através de seus realizadores, autores ou ambientação. Tais obras estavam distribuídas em múltiplos setores da programação, logo também tinham proposições estéticas distintas.

Na sessão “Pequenos Olhares”, filmes infantis/infanto-juvenis. Nas vezes que estive presente, foram levadas turmas do ensino básico para a sala de exibição. Era engraçado perceber as reações, o comportamento na sessão, a reprimenda das professoras pela inquietação dos alunos e uma resposta espectatorial genuína e quase imediata diante do que viam. Afinal, se os filmes foram feitos para tal público, é uma profícua experiência para os realizadores estarem na mesma sala. O filme Meu nome é Maalum (2021), de Luisa Copetti, é uma animaçãoque conta a história de uma família preta, onde a filha de um casal sofre um caso de racismo através de seu nome. Os cenários são alternados por dimensões imaginativas que atravessam os quadros, árvores, traços, vão entrando no plano, ora dominando o quadro para nos situar na sala de aula, em casa, no jardim, ora saindo de tela para dar espaço a outras fantasias. Cumprindo certa função didática, seja no letramento racial ou na pedagogia da sala de aula, traz um digno final feliz.

Frame de “Meu nome é Maalum”

O fundo dos nossos corações (2021), de Leticia Leão, dialoga em outras questões identitárias. O curtainicia com uma sala de aula virtual do ensino básico, crianças e professora em telas tentam se comunicar. Durante a classe, quadros se alternam conforme os alunos vão falando, as vozes e imagens se justapõem uma à outra, na caótica dinâmica do ensino digital. O intervalo chega e os colegas começam a falar como os filhos nascem. Alguns dizem que foi da cegonha, outros contam histórias mirabolantes.

A protagonista, que possui duas mães, pergunta para a professora, que por sua vez a orienta a buscar nas suas responsáveis a resposta. Em um papo rápido, elas elucidam que se conheceram “na faculdade de Cênicas”. Insatisfeita com as explicações acerca de seu advento no lar, ela retorna ao álbum de fotos da família e encontra alguns registros seus mais nova: não é suficiente. Fica chateada por não encontrar explanações satisfatórias, então as confronta novamente.

Certo dia, a garota encontra bilhetes no chão com pequenos recados – uma pequena brincadeira de caça-ao-tesouro – e segue as pistas propositadamente espalhadas pelos cômodos. Ao final, chega a uma cabana improvisada dentro de casa. À sua frente, um pano estendido. Atrás do pano, suas mães contracenam em um jogo de sombras, enquanto contam sua história. Uma apresentação teatral é a solução encontrada por ambas para arranjar um jeito criativo de contar que a filha foi adotada. De maneira divertida, outras maternidades são abordadas: sem perder a descontração, o filme naturaliza a formação de outros modelos de famílias.

Frame de “O fundo dos nossos corações”

Já na mostra  “Olhares Brasil”, distintos prismas da “produção nacional”. Frente às dificuldades da cinematografia no país, também exibe a interseccionalidade com outras nações.

No longa Maputo Nakuzandza (2021), de Ariadine Zampaulo, uma noiva que abandona o altar é catalisadora de histórias sobre procuras e desvios. Ela anda a ermo, vaga pela cidade, desvinculada de seu lugar-origem, associa-se com a paisagem, é descoberta pelos transeuntes e noticiada na rádio local, de nome homônimo ao título do filme. Tal veículo de comunicação é atualizador fundamental de notícias, porta voz das mensagens da comunidade. Rádio no carro, na casa, ele nos situa na narrativa, confere fatos e nos localiza culturalmente.

As performances entremeiam a história, corpos e tecidos esvoaçantes em ruínas, competem com um silêncio presente em todo o filme, que nos deixa observando esses sujeitos à deriva. Gravado em Moçambique, o filme fala sobre machismo, lar – e suas derivadas rupturas.

Frame de Maputo Nakuzandza

No núcleo “Outros Olhares”, a vontade de sair fora da curva.

O documentário 7 Cortes de Cabelo no Congo (2021), de Luciana Bezerra, Gustavo Melo e Pedro Rossi, dividido em sete atos durante noventa minutos, é gravado em um cabelereiro na periferia carioca, onde seus clientes chegam para aparar o visual e logo são inseridos em alguma discussão geopolítica. Com o passar dos depoimentos, tomamos dimensão que o proprietário do salão – condutor dessas histórias – é um sujeito atento às questões da nação congolesa, tendo servido no exército e em outras organizações de resistência militar: mostra vídeos no celular e fomenta a opinião alheia. Amigos e conhecidos trazem diferentes e divergentes perspectivas que acendem a tensão ideológica das inúmeras travessias e valores sociais por eles apresentados.

O francês, enquanto idioma do colonizador, é um dispositivo de violência. A educação civil define quem é gente e quem não é. Crê ser necessário uma ingerência política, ouvimos relatos da guerra civil, de navios negreiros de fuga, imagens de retorno ao Congo.

As relações de pertencimento territorial são tão complexas quanto as fronteiras que baseiam nossos trajetos. Pátria-mentira, pátria-origem. Lutar pelo bem do país ou fugir do país para o próprio bem? O retorno à própria nação ou ser eternamente estrangeiro em outro lugar: dicotomias delimitantes.

A trilha sonora, constantemente apoiada na guitarra elétrica, junto às imagens de drone que sobrevoam as paisagens naturais da África Central, proporcionam uma aura demasiadamente western, num deslumbrado “desbravamento”. Acredito que o som poderia caminhar – mesmo que timidamente – em percussões ou outras melodias originárias do país, como a rumba ou o soukous.

Lá pelo quarto corte, que não é propriamente mais um corte de cabelo, e sim um corte fílmico, o entrevistado entoa acapella um canto anti-imperialista. Daí “os cortes”, destes sete que são anunciados, vão adquirindo outros significados. De alguma maneira o discurso pan-africanista reverbera nas posições ideológicas, ora mais brando, ora inflamado. Carregando um engajado discurso social, o filme encerra com uma manifestação levantada pelo proprietário do salão, num protesto contra a colonização europeia – que continua acontecendo – na África (e por que não, em outros continentes?).

Frame de “7 Cortes de Cabelo no Congo”

O longa “Os Primeiros Soldados” (2021), do diretor fluminense Rodrigo de Oliveira, conta a história sobre algumas das primeiras pessoas diagnosticadas com o HIV no Brasil. Da incerteza sobre o corpo à melancolia do isolamento, seja na solidão da doença, na fuga para o sítio, ou na longitude das coisas, lá longe, distâncias oceânicas de Paris. Na espera de uma solução para o que não se sabe o que é, sobrepõem-se dramas familiares, segredos meio ditos, no impedimento dos afetos, no silêncio do medo.

Um ponto alto é a atuação de Renata Carvalho: encarna uma artista, diva da comunidade LGBT de sua cidade no Espírito Santo, que a cada aparição preenchia a sala com suas multifaces. Rose amargurada, Rose esperançosa, Rose histérica, Rose calada, Rose radiante, Rose magnetizadora em seus monólogos. Fazendo uma personagem de uma atriz, Renata constrói sutilmente as camadas de interpretações, nuances dos estados de humor, revelando pouco a pouco uma personagem complexa e fascinante.

Há um romantismo – ora melancólico, ora revigorante – presente nos personagens, onde exprimem suas poesias e fantasias, na consciência da efemeridade de suas existências, não temem em inventar seus mundos de ilusão. Na prática auto-laboratorial da sobrevivência, a criação de redes de conhecimento. No compartilhamento da intimidade, momentos de tensão e momentos de reflexão. O filme traz uma mensagem de amor, uma lição sobre o amor, um grito contra o esquecimento.

Frame de “Os Primeiros Soldados”

A sessão “Olhares Clássicos” se propõe a revisitar algumas obras já legitimadas na história do cinema brasileiro. Percebendo o perfil do festival e da cidade onde acontece, há tanto certo preciosismo pela tradição quanto uma responsabilidade de revisitação histórica.

O filme Opinião pública (1967), de Arnaldo Jabor começa e termina com a visão do aterro do Flamengo, mostra uma cidade em construção para o moderno, obras, novos prédios, habitações para o crescimento demográfico, as moradias-compartimentos pipocam nos centros urbanos.

Na intenção de executar um mapeamento etnográfico da classe média, a narração em off direciona as impressões dos entrevistados: ideais, relacionamentos, afinal o que é a vida? Ilusão e realidade.

Na orla, espaço de lazer e prosa, uma roda de amigos fala sobre o futuro, mil e uma expectativas. Na hora do almoço, falam sobre vencer na vida. Os trabalhadores, em suas repartições, tentam vencer na vida. A busca do sucesso, da sua verdade, a luta pela “vontade” de cada um. Assim imprimem o ser humano médio, com ambições médias, atitudes medianas, nada além do permitido ou esperado. Esse atrelamento às normas e instituições civis, como a família ou a igreja, são características indissociáveis desses sujeitos. Representando a religião como um pilar para a continuidade da existência de tais indivíduos, o documentário ilustra alguns catárticos e delirantes retratos da fé, seja no supressor pentecostalismo ou nos gingados da umbanda.

O filme possui dois pontos chave, cativantes na crueza de seu registro:

O primeiro é o de uma mulher – mais velha, como se coloca diante das demais – versando sobre romance. Elocubra sobre relacionamentos, suas perspectivas da paixão. Gostar muito e sentir saudade é amar? Amor é desejo carnal mas é mais. Que homem vale se casar? Um bom homem deve ser trabalhador, não deve se casar com homem vagabundo, nem 10% vagabundo – reitera.

O segundo é a de um senhor militar que discursa sobre valores morais. Austero para o entrevistador, louva seu ofício, sua trajetória de vida e uma criança – um de seus filhos ou netos que preenchem a casa – olha para a câmera e se exibe. Despontando ao olhar, ele faz gracinhas, preenche o quadro com caretas, línguas e ingenuamente tira sarro de toda a cena.

Os papéis de gênero ficam explícitos nos takes, onde homens e mulheres não discursam em um mesmo plano, ou quando são os homens que abrem a boca, as mulheres ficam caladas. Como habitual, discursos alienantes a favor da desigualdade social e a cafonice marcam presença nas imagens. Opinião Pública, apesar de algumas pretensões, explica muito o que nos acontece, Em relatos genuínos, escancaramos a cara para padrões sociais tão démodés quanto em voga, talvez porque ainda sejamos os mesmos.

Frame de “Opinião Pública”

O festival acontece anualmente e essa foi a primeira edição pós pandemia. Com uma ampla programação, incluindo debates, mesas redondas, e lançamento de livros, trouxe participantes dos filmes para a cidade assim como prestigiou a produção local.

Toda agenda pode ser conferida no site deles.


Nascido em 1996, Noah trabalha como artista multimídia e explora majoritariamente campos da escrita, do vídeo, e das artes plásticas. É proprietário da marca Debauxe e do espaço de arte Casa Povera.
Graduado no Bacharelado Interdisciplinar em Artes & Design pela Universidade Federal de Juiz de Fora e mestrando em Cinema e Artes do Vídeo pela Universidade Estadual do Paraná. Possui curso técnico de Aprendizagem Industrial em Confecção e Moda pelo Senai Luiz Adelar Scheuer.

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