Desvio Indica

Entrevista Myllena Araujo

De 1993, nascida e criada em Duque de Caxias (RJ), Baixada Fluminense, Myllena Araujo é fotógrafa, artista visual e educadora. Formada em Licenciatura em Artes Plásticas pela EBA/UFRJ, é mestre em Educação, Cultura e Comunicação em Periferias Urbanas pela FEBF/UERJ. Seu corpo é parte do processo que desenvolve em deslocamento enquanto mulher periférica, dialogando com as barreiras físicas e sociais que as distâncias promovem a regiões não legitimadas.

Instagram // Site // O mundo Virado

CORPEMBOLADO, Desenho Digital, (2021)

_ Myllena, sendo graduada em Artes Plásticas pela UFRJ, comente um pouco sobre sua trajetória pela universidade?

Entrei em Setembro de 2012 e me formei em Abril de 2018. Foram 6 anos de Escola de Belas Artes, vivendo a UFRJ em todas as suas nuances, maravilhas, greves, incêndios, trabalhos, jornadas de iniciação científica, festas e estágios. Como uma artista que se faz atravessar pelos percursos, acho importante destacar as segregações sociais e espaciais surreais impostas pela graduação, como o fato do curso de Licenciatura em Artes Plásticas ter disciplinas obrigatórias no campus do Fundão, Centro, Praia Vermelha e Jardim Botânico, onde o estudante que se vire para estar às 07:30 da manhã na primeira aula ou para sair às 21:00 da última. Enquanto corpo que viveu e adoeceu por isso, conseguir me formar sendo moradora do segundo distrito de Duque de Caxias foi desafiador e por vezes me pareceu impossível-eterno. Dentro dessa jornada, para a minha sanidade, o que eu mais fiz foi transformar minha inquietação social e espacial em projetos de vida e arte. Foi assim que em 2016 nasceu FLUXO, uma fotoperformance onde acontece um moer de carne em praça pública, na rua da Carioca. Esse trabalho surgiu depois da minha primeira crise de pânico, episódio que ocorreu dentro de um ônibus em Duque de Caxias. Depois dessa crise foram muitas outras e em sua maioria dentro do coletivo lotado, em pé, carregando mochila pesada, presa no engarrafamento. Cenário sufocante e angustiante para um corpo adoecido de cidade, adoecida dos percursos longos diários e da pressão que é viver o grande fluxo, essa grande máquina de moer gente.

Um ano antes deste trabalho em crise, nasceu a série fotográfica TRANSITU, onde eu sobreponho uma foto minha e uma foto de um outro fotógrafo, Bruno Guimarães, ele morando em Niterói, vai para o trabalho em Botafogo de bicicleta e barca, enquanto eu preciso andar, pegar trem e ônibus para conseguir chegar no mesmo ponto da cidade. E nessa sobreposição e contradição de caminhos-paisagens realizamos a mostra TRANSITU, que ficou em cartaz no Centro Cultural da Justiça Federal (CCJF), em 2016, com a curadoria de Claudia Elias. Para além do grande drama de viver os deslocamentos, estar na universidade foi maravilhoso, ser instigada a descobrir técnicas novas e trabalhar processos em ateliê foi fundamental para expandir o meu olhar, o meu corpo e as minhas mãos que já estavam pré moldadas e tendencionadas à fotografia. E é claro que eu não fugi disso, por mais que dentro do meu curso não tivessem disciplinas obrigatórias em fotografia ou afins, busquei sempre me aproximar dessa linguagem, trabalhando como fotojornalista para a Coordenadoria de Comunicação da UFRJ, sendo monitora das disciplinas de Fotografia Analógica, do antigo Laboratório de Fotografia da UFRJ e atuando como bolsista colaboradora do Curso de Extensão Investigações Fotográficas que acontece no CAp-UFRJ. No final, minhas pesquisas e desdobramentos sempre acabavam em fotografia ou em alguma coisa ligada à ela, como colagem, intervenção digital, performances e fotoperformances.

MYLLENA E BRUNO_TRANSITU_CCJF_2016

_ Em sua relação entre corpo e cidade, você encara e sofre diversos atravessamentos que se configuram no que é seu criar enquanto mulher que encara o caos urbano. Em Multiplicidade (2012), é apresentada uma coleção de fotografias em preto e branco, que, visualmente, se dispõe na repetição. Ao pensar neste trabalho, vejo impressa a repetição de percursos, esses seus, e de outros corpos que também habitam a cidade. Durante o desenvolvimento de Multiplicidade (2012), quais processos fizeram parte do trabalho concluso?

Antes de Multiplicidade, as minhas fotografias se davam dentro do meu bairro, ainda eram ingênuas enquanto projeto. Eu buscava mais devorar, absorver e entender tudo aquilo que eu via. Aliado a isso, sempre gostei muito de testar os limites da minha câmera digital automática, uma CyberShot, aquela típica dos anos 2000, a única que tive acesso por muitos anos. E foi com uma dessas que eu desenvolvi a série Multiplicidade em 2012, ao encontrar nas configurações do aparelho um modo de captura que registrava 16 quadros por disparo. Percebi que com esse mecanismo poderia criar montagens instantâneas, e foi assim que comecei a pesquisar a rua a partir dessa modelagem, alinhando vigas, postes, tentando alcançar passadas, me aproveitando do movimento do ônibus para realizar as capturas simultâneas, enfim… organizando e desorganizando os trajetos a partir de como o meu corpo realizava o disparo. A escolha pelo monocromático nessa série se deu no momento em que eu entendi a força gráfica desses encaixes de cidade dentro dos quadros, ali eu vi que a cor não seria uma aliada diante de tanta informação, construção e movimento, então passei a fotografar com a opção monocromática ativada na câmera direto na hora da foto. Dentro dos meus outros trabalhos ao longo desses anos, é possível perceber uma fotografia com muitas camadas, sempre busco formas de entregar a imagem para além do registro puro e simples, gosto das informações cruzadas, do movimento, das linhas se sobrepondo e do volume. Eu sinto a rua assim, em volume, em constante movimento e intensidade. Continuo usando camerinhas automáticas para realizar minhas capturas na rua, gosto de como esses processos me levam para um outro resultado estético, diferente dos registros profissionais, o acaso e os modos de conseguir burlar o automatismo dessas camerinhas me fascina, gosto de jogar com elas. Além disso, me sinto menos intrusa nessa relação de apontar e disparar em público, e no público, esse ato na fotografia por vezes pode ser muito violento, sempre tive muito medo e cuidado para não ser uma invasora, por isso antes de levantar a câmera eu procuro me certificar se o ambiente está favorável para tal ato e em qualquer sinal de desconforto eu recuo, em respeito.

Enquanto mulher que encara o caos urbano, percebo que a fotografia ainda é um campo muito masculinizado, e quando paramos para pensar sobre a fotografia de rua, os grandes nomes mundiais e nacionais acabam, em sua maioria, ainda se voltando para homens, com isso, confesso que demorei praticamente esses 10 anos para entender o meu gênero dentro do meu próprio trabalho e principalmente na rua. Não é fácil ser uma artista visual que coloca o corpo em um embate que, por vezes, nem nos é legitimado. Acabo tocando em um assunto que nem parece pertencer ao universo feminino, já que flanar é um ato historicamente masculino. Logo, estou agora, em 2022 entendendo e reconhecendo o meu ser-mulher-na-rua, é um processo, mesmo sabendo que essa minha leitura e esse meu olhar enquanto artista mulher me atravessa desde sempre, quero agora poder me relacionar com mais força e mais intenção sobre isso.

Percurso, Colagem digital de trajetos, (2020)

_ Sendo mestre em Educação, Cultura e Comunicação em Periferias Urbanas pela UERJ, você comunica com clareza o impacto de existir na Baixada na sua vida e obra. Durante essa etapa, quais caminhos você percebe modificarem sua percepção com relação a arte educação?

Durante o mestrado encontrei na escrita e nos relatos de campo uma outra forma de desenvolver o meu olhar e a minha percepção para as minhas vivências, e isso foi muito rico. Deixo aqui um trecho da minha dissertação de mestrado “Entre Mapas e Mundos Virados: O olhar fotográfico do jovem morador da Baixada Fluminense”, no qual eu relato a minha chegada à estação de trem de Jardim Primavera para iniciar a minha pesquisa de campo:

O trem balança mais de Gramacho pra cá, a maciez do trilho se perde em meio a tanto remelexo e bateção. Próxima estação Jardim Primavera, desço enfim na penúltima estação do ramal Saracuruna. Passarinhos em canto estridente me recebem já na plataforma, mas diferente de algumas estações de metrô da Cidade do Rio de Janeiro, o som não sai de alto-falantes e sim dos pulmões dos moradores da plataforma, que sobrevoam e fazem seus ninhos em meio às pilastras. Fui recepcionada pelos passarinhos e em seguida por duas senhoras com panfletos em punho que diziam: Jesus te ama. Tudo parece estar no mesmo lugar, cada som, morro e buraco, mas eu não estou mais, o horizonte daqui parece raso, me sinto gigante, as linhas são finitas e para onde eu olho vejo um limite, como em um globo de natal, uma redoma protege, abafa e limita as minhas possibilidades nesse mini-mundo. (ARAUJO, 2021, p. 54)

Foi muito importante entender como a minha cabeça e o meu corpo comportam o meu bairro hoje. Entendo e percebo o quanto que eu sou ele e o quanto dele cabe em mim. Mas essa não é uma relação onde a cidade me engole, a rua Maturim não me ocupa por completo, ela é o meu molde, a minha raiz. Quando eu me senti devorada, precisei enfrentar e consegui dobrar de tamanho. Entendendo essa minha relação com o meu bairro, busquei no mestrado realizar um levantamento sobre como havia sido a minha trajetória educacional em cursos gratuitos e projetos sociais ofertados para a população, relacionando com as distâncias que precisei percorrer para enfim participar dos cursos. A partir de então, me dei conta que dos 09 anos de idade até os 19 anos eu concluí 10 cursos, sendo estes dos mais variados, todos gratuitos. Percebi também que, conforme eu crescia, esses caminhos também cresciam, se alongavam, as distâncias se faziam cada vez mais difíceis. Comecei aos 09 com o balé pelo Projeto Luar aos sábados pela manhã, ia à pé com a minha mãe, até que aos 19 anos para cursar fotografia na Escola de Arte e Tecnologia Spectaculu eu precisava todos os dias pegar um ônibus 5h da manhã para conseguir chegar na aula às 08h. E foi a partir dessa análise temporal de mapas que nasceu em 2020 a colagem digital Percurso, onde meu corpo é suspenso, envolto e absorvido por esses caminhos que fazem parte da história da minha vida. Marcado no mapa da ponta da minha casa, indo de curso em curso, essas linhas foram se alongando e me formando. Enquanto meu corpo crescia, elas também cresciam e se multiplicavam cada vez mais. Em 2021, a colagem digital Percurso foi exposta na mostra coletiva Poéticas Femininas da Periferia, no Paço Imperial (RJ).

Para além das descobertas e inquietações internas provocadas a partir da pesquisa, é importante ressaltar quão gratificante foi poder trocar com jovens de 17 a 25 anos, moradores de diversas cidades da Baixada Fluminense sobre como eram suas vivências, realidades, questões, maravilhas e lutas enquanto moradores de regiões tão ricas e por vezes tão precarizadas. Poder provocar a imagem fotográfica neles foi a minha força motriz de pesquisa, entender o olhar desses jovens para com a sua rua e realidade foi como devolver e multiplicar para o mundo o meu próprio olhar e o sentimento do que é ser e estar na Baixada Fluminense. São fotografias lindas, potentes, cheias de significado e desejos de mundo.

Quem tem medo da Central do Brasil_, Fotografia, (2017)_

_ Myllena, tendo origem em Caxias, o espaço se transforma em trabalho e arte. Conta mais sobre isso?

O meu trabalho é sobre o meu ambiente. A minha pesquisa existe porque o meu corpo foi moldado e forjado para viver a experiência de ser e estar na Baixada Fluminense. Encontrei na fotografia um lugar de apoio necessário para evidenciar minha rotina, meus caminhos, minhas dores e amores com esses percursos. A maneira que eu consegui e consigo até hoje expressar tamanho envolvimento e entrega é a partir dos meus trabalhos visuais. A Baixada por si é gigante, falando só sobre a minha cidade, em Duque de Caxias são quatro distritos, é terra que não tem fim, são muitos bairros, muitas histórias… o que posso garantir enquanto corpo ativo em deslocamento entre cidades, é que apesar da imensidão, o que nós temos em comum, inclusive em toda a Baixada Fluminense, são os deslocamentos obrigatórios para outras regiões somado à falta de conexão para que haja uma locomoção saudável da população. E isso acontece inclusive no micro, dentro de seus próprios distritos, nada é muito interligado. Essa não conexão é o ponto chave da minha inquietação e pesquisa, percebo o quanto de vida foi e vem sendo esvaziada de sentido todas as vezes que preciso estar de pé num ônibus lotado, pagando caro, me mantendo por três horas na Avenida Brasil apenas para conseguir chegar na universidade.

_ Atuando enquanto fotógrafa e artista visual,  você sente alguma convergência entre as bases escolhidas para suas manifestações artísticas?

Não sinto uma convergência, dentro de mim tudo é uma coisa só. Sou artista visual e o meu suporte é a fotografia. Hoje eu tenho trabalhos que foram expostos em instituições onde eu assino como fotógrafa e tenho outros que assino como artista visual. Essa diferença ao meu ver se dá muitas vezes mais externamente do que internamente, porque o que sai de mim é imagem, a diferença se dá na aplicação, no projeto no qual eu estou envolvida ou em como a instituição lê o meu trabalho. A série Multiplicidade, por exemplo, é um trabalho autoral em fotografia, ele já foi exposto em festivais que tem a fotografia como linguagem única, mas também já participou de mostras de artes visuais e arte contemporânea. Quando eu me volto para os desenhos e as colagens, eu busco sempre apoio nas imagens, sejam mapas, registros que eu mesma fiz, imagens de cabeça que vem pela memória… de alguma forma o meu desenho e a minha produção para além do click também advém da foto.

_ Enquanto arte educadora, diversos acontecimentos envolvem você ao decorrer dos anos. Entre cursos, ocorre uma enorme troca de saberes. Conta mais sobre sua atuação nesses espaços de troca?

Eu decidi que seria professora de artes muito antes de entender que poderia ser artista visual e fotógrafa. Essas são possibilidades recentes na minha vida, frente à certeza de que teria alguma garantia mínima de emprego escolhendo ser professora de artes, pelo menos essa era a sensação que eu tinha aos 14 anos de idade, quando ainda no ensino fundamental escolhi o que seria quando crescer. Assim que comecei a estudar as disciplinas de educação da Licenciatura, entendi que era esse o meu caminho. A educação para mim é ferramenta primordial para a transformação social que tanto almejamos, tudo advém do ato de apreender o mundo, compreender as coisas e o outro, e isso é arte-educação, é sobre possibilitar outras formas de ver, sentir e se expressar na vida.

Na graduação fui estagiária de turma e bolsista em projetos de arte-educação. Antes mesmo de estar em sala de aula na educação formal, experimentei a praça pública como meio de dialogar com o outro, com o projeto que desenvolvi intitulado O Mundo Virado na Praça, onde venho desde 2017 realizando oficinas de câmera escura em praças de regiões periféricas no Estado do Rio de Janeiro. Além disso, esse projeto também foi executado com a comunidade Kuikuro, no Alto Xingu, em uma residência artística na qual pude desenvolver todas as minhas formas de lidar com o mundo a partir da fotografia, das artes visuais e da arte-educação. Foram 15 dias de muita entrega, muita troca e aprendizado, dali saíram trabalhos que até hoje reverberam mundo afora.

Na educação formal atuei como professora substituta do Colégio de Aplicação da UFRJ, trabalhando com estudantes do Ensino Fundamental, foi uma outra forma de me relacionar com a arte e com a educação, ali eu tive o processo de elaborar junto com as crianças um ano inteiro de repertório, análises, projetos, leituras de obra, execuções em desenho, pintura,  fotografia e corpo. Poder observar esse desenrolar e desenvolver é maravilhoso e gratificante. Atualmente estou atuando enquanto educadora do projeto de Formação Inicial e Continuada, uma parceria entre o SENAI/FIRJAN e a SEEDUC, onde eu atuo em um Colégio Estadual, em Duque de Caxias, no contraturno dos estudantes do 3º ano do Ensino Médio, oferecendo os cursos de Fotografia e Vídeo com smartphone. Estar em sala de aula faz toda a minha trajetória enquanto artista periférica ter sentido, é através dessas trocas, do diálogo e da provocação com o outro que consigo ver portas e possibilidades de mundo se abrirem, poder presenciar isso é forte demais.

_ Desde 2020, encaramos uma pandemia mundial, que afeta vidas, rotinas, corpos e mentes. Enquanto artista e arte educadora, quais os maiores desafios e realizações afetam você e seus ambientes desde o início da pandemia?

Nossa!!! A pandemia virou o mundo do avesso. Na minha cabeça também não foi diferente, meu corpo sentiu muito a imobilidade. Procurei recursos para conseguir circular e graças aos incentivos culturais pude então mergulhar em estudos, propostas, mentorias e editais de fomento à cultura de forma remota. Mas para além dessa rede de apoio também precisei me reinventar em todos os aspectos. Enquanto educadora, em 2020, estava atuando no Colégio de Aplicação da UFRJ, e tivemos que reorganizar a escola diversas vezes de acordo com as necessidades, mês a mês, promovendo encontros virtuais quando possível a fim de manter essa relação entre os estudantes e o corpo escolar, cuidando sempre da realidade de cada família, entendendo as necessidades de urgências de todas as nossas vidas ali naquele contexto de ensino remoto. Vivemos grandes distâncias, desafios enormes, mas conseguimos atuar nesse ano de incertezas com muito afeto, dedicação e amor pela educação.

Minha pesquisa de mestrado também foi completamente atingida por esse contexto, a rua que tanto me atravessa precisou ser colocada no campo das ideias, conversamos sobre deslocamentos, vivências, experiências e sensações a partir de telas, tudo precisou acontecer de forma remota. O lado positivo foi conseguir um público diverso participando dos encontros, mas com certeza não poder intervir na cidade com os nossos corpos em ação, fotografando enquanto coletivo foi uma perda que ainda pretendo conseguir recuperar. Espero que em breve aconteça uma saída fotográfica presencial com os jovens participantes do projeto Entre Mapas e Mundos Virados.

Até hoje venho colhendo esse outro modo de ser e ocupar, por mais que em alguns lugares tudo parece que já tenha voltado ao normal, ainda existe uma aura de medo circundando a gente enquanto massa que aglomera nos transportes públicos – eu, por exemplo, continuo fazendo uso de máscara em lugares fechados ou ambientes muito cheios. Por mais que seja sutil, estamos vivendo um outro jeito de olhar para o que é o público e privado dentro desses coletivos urbanos, e isso ainda se faz muito recente, estou tentando absorver, tentando entender como lidar, como perceber, como viver e sobreviver.

_ Atualmente você integra o “Coletivo Na Borda”, fala mais sobre isso?

Nos conhecemos através da mentoria artística do Projeto Artistas Latinas, e a partir desta iniciativa, criou-se uma rede de apoio e estímulo à produção artística entre nós. Apresentamos o corpo em borda, que pulsa e produz em trânsito enquanto um coletivo que é atravessado pelo território e cultura local, entendemos que a cidade também pode ser construída para além das imposições de gênero e delimitações territoriais: ressignificando dores e vivências, criamos estratégias, existindo entre um corpo e uma cidade que oprime, com isso, questionamos sobre a vulnerabilidade que o sistema patriarcal gera em nossos corpos e identidades. Somos um coletivo recente, iniciamos em 2021, estamos nos apoiando na elaboração de projetos para exposições e desejamos construir muitos trabalhos enquanto um grupo que pensa, sente, questiona e dialoga sobre a rua, a cidade, a periferia, o feminino e suas implicações diante do mundo. Somos sete artistas integrantes do coletivo Na Borda,  oriundas de diferentes regiões periféricas do Estado do Rio de Janeiro, LGBTQIAP+, de gêneros Feminino Cis e Não Binário, composto por:

Ana Bia Novais, artista visual e educadora, que vive e trabalha na Zona Norte do Rio de Janeiro, Ana Brito, cria da Ilha do Governador, artista visual, produtora cultural e empreendedora. Bia Gonçalves, artista visual e produtora Cultural, criada em Duque de Caxias, mas que atualmente mora em Santa Marta, periferia do Rio de Janeiro, Claudia Diaz TS, artista visual, pesquisadora PIBIC de Arte e Política e advogada, Cyntia Dias, artista visual, moradora de São João de Meriti, e Roberta Vaz, fotógrafa, moradora da Pavuna.

_ Durante esse longo caminho, que esse ano completa uma década, você afeta e é afetada por diversos atravessamentos, obstáculos, ruas, bairros e indivíduos, além de também conquistar saberes e percepções. Ao decorrer dos anos, quais as maiores mudanças percebidas por você enquanto pessoa, artista e arte educadora? Como tudo isso moldou, e molda você, seus saberes e ambientes ?

Naturalmente e felizmente venho amadurecendo muito dentro do que eu faço, procuro sempre estudar mais e aprender melhor sobre esses processos. Posso destacar aqui um ponto importante, um erro que já cometi no passado e se não me cuidar posso acabar cometendo. Confesso que por muito tempo vi Duque de Caxias como um lugar somente de escassez, onde sempre haviam grandes lacunas a serem preenchidas por outras cidades, principalmente pela capital do Estado do Rio de Janeiro. É claro que ainda não temos tudo, mas isso não significa que não temos nada, pelo contrário, Duque de Caxias produz sim muita arte, muita cultura, somos detentores de histórias, de saberes, partilhamos conhecimentos, temos projetos incríveis sendo movimentados por articuladores e artistas que são cria da Baixada. Reconhecer e estar junto dos meus me fez perceber como esse discurso do vazio faz com que muita gente, inclusive eu mesma, se torne invisível, e desta forma acaba que ninguém se reconhece entre si. Tem muita gente fazendo muita coisa, muito artista movimentando a cena e é preciso somar sempre, ganhar corpo, estar junto, botar a cara. Ao longo desses anos conheci tanta gente importante, tantos projetos me formaram e moldaram, inclusive, deixo aqui o meu muito obrigada ao artista plástico Paullo Ramos (in memorian), que dedicou sua vida ao ensino do desenho e da pintura em Duque de Caxias, eu tive a honra de ser aluna dele por alguns meses, uma aluna de 17 anos bem rebelde que mesmo amando as artes detestava as regras do desenho técnico, mas precisava dessa expertise para conseguir passar na antiga prova de THE (Teste de Habilidade Específica) da UFRJ. Atualmente, venho trocando com tanta gente bacana, são referências, projetos e figuras históricas que continuam somando como o Goméia Galpão Criativo comandado pelo artista, pesquisador e cineasta Heraldo HB, o Coletivo Baixada Cruel comandado pelas articuladoras políticas Esther e Giselle, o Projeto Luar de Dança que há mais de 30 anos vem fomentando as artes em Duque de Caxias, o coletivo Movimenta Caxias organizado pelo educador popular Wesley Teixeira, o FAIM Festival comandado pelo artista visual e pesquisador Osmar Paulino, o Coletivo BXD Lambe, o pintor Lucas Finonho, o artista plástico Raoni Redni, Coletivo Artivismo BXD, a artista Malê, o pesquisador e curador João Paulo Ovidio, entre tantos outros que com certeza estou deixando de fora por me falhar a memória. São nomes, histórias, projetos e pessoas que abrem possibilidades e fazem acontecer, tenho muito orgulho de ser parte disso também, com eles me sinto inteira.

_ Myllena, pra finalizar, após todos esses anos, com suas mais variadas inquietações e prazeres, quais caminhos, ainda não encarados, você deseja trilhar?

Tenho muito desejo de mundo, quero devorar muita coisa por aí ainda. Gosto do banal, do cotidiano, gosto do volume, da vida girando dentro da imagem, para sempre. Eu gosto dessa eternidade em movimento, a rua me traz esse infinito, a fotografia atesta. Se tudo der certo, ainda tenho muitos anos de vida pela frente e eu tenho certeza que por mais que eu continue explorando, jamais vou conseguir esgotar a experiência do que é ser e estar por aí, em circulação.


EXPOSIÇÕES COLETIVAS

2022 – World Creativity Day – Duque de Caxias – RJ

2022 – O urbano entre realidade e utopia – Festival de Fotografia de Tiradentes – MG

2022 – The urban between reality and utopia – Rotterdam Photo Festival – NL

2022 – Nova Vanguarda Carioca – Cidade das Artes – RJ

2021 – Mostra Suburbanidades: O lugar da periferia na arte contemporânea – Museu de Arte Contemporânea de Niterói – RJ

2021 – Mostra Luz del Fuego – Exposição fotográfica em forma de Lambe Lambe – Buenos Aires – AR

2021 – Mostra Luz del Fuego – Exposição fotográfica em forma de Lambe Lambe – Cachoeiro de Itapemirim – ES

2021 – Mostra de Artes Visuais da Baixada Fluminense – MAV Baixada 2021 – Online

2021 – Mostra Poéticas Femininas na Periferia – Artistas Latinas – Paço Imperial – RJ

2021 – Mostra Poéticas Femininas na Periferia – Artistas Latinas – Online

2021 – 17ª Bienal Internacional de Arquitetura de Veneza – Oca Red – Instalação de Gringo Cardia e Takumã Kuikuro – IT

2020 – Mostra EAV 2020 Parque Lage – Online.

2019 – Exposição fotográfica – O mundo com outros olhos – Pavilhão das Artes Riocentro – RJ

2018 – Xingu Exchange Tate -Tate Modern -Londres

2018 – Xingu Village – Horniman Museum – Londres

2017 – Exposição “Luzes da Aldeia”, “A performance da masculinidade dos Kuikuros” e “Forças da Natureza” – Oi Futuro Flamengo – RJ

2016 – Exposição “TRANSITU” no Centro Cultural da Justiça Federal – RJ

2016 – Performance Gambiarra Lab – Festival Multiplicidade – Oi Futuro do Flamengo – RJ

2016 – Performance Gambiarra Lab – Galpão Bella Maré – RJ.

RESIDÊNCIAS ARTÍSTICAS

2021 – Mentoria Artística Poéticas Femininas na Periferia – Artistas Latinas – RJ

2017 – Residência Artística no Alto Xingu – Desenvolvimento de projetos artísticos, fotográficos e educacionais – MT

2016 – Residência Artística Gambiarra Lab – Galpão Maré – RJ

PROJETOS AUTORAIS DESENVOLVIDOS

2021 – Curso online Entre Mapas e Mundos Virados – Fotografia e Cidade

2021 – Curso online de Fotografia Básica – Te vi na Luz

2017 – Oficina O mundo Virado na Praça – Câmera Escura

2016 – Oficina de Fotografia Digital Básica – Investigações Fotográficas

GRUPOS DE ESTUDOS E PESQUISAS

2022 – Participante do Coletivo Na Borda

2021 – Participante do Campo Experimental da Imagem – UERJ

2019 – Participante do Núcleo de Pesquisa Educação e Cidade – UERJ

2016 – Colaboradora do Curso de Extensão Investigações Fotográficas – UFRJ


Clarisse Gonçalves 1998. Graduação em história da arte em andamento na UERJ. Pesquisadora e historiadora da arte situada no Rio de Janeiro. Atualmente pesquisa manifestações artísticas periféricas, negras, e afrodescendentes no estado do Rio de Janeiro. Bolsista do projeto “Mapeando Arte e Cultura Visual Periférica”.

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